E ae, quanto vale a sua carreira?

Todos os dias vemos amigos, colegas e ídolos indo trabalhar fora do país. Dos frontenders que eu admiro, a maioria não mora mais no Brasil e isso é bom, é ótimo para eles e para nós, pois nos dá um sonho a seguir, algo pelo que lutar, estudar e seguir trilhando nossa vida.

Estou aqui em Porto Alegre, dentro de um quarto numa housing (é tipo uma república) e nesta segunda visita, tenho descoberto que a temperatura em POA quando não ta muito frio, está muito quente, e dentro deste quartinho de 2m x 4m com apenas um ventiladorzinho, tá muito mais quente do que lá fora.

Esta é minha primeira visita a POA. Bom, oficialmente é a terceira, a primeira vez cheguei aqui para o Brazil JS ano passado, mas, neste atual contexto é a primeira.

Dois meses atrás, especificamente vinte dias antes do carnaval, meu marido se candidatou a uma vaga de modelador em uma das melhores empresas de 3D do Brasil. Devo dizer que ele ficou desesperado agoniado pela chance de trabalhar com os ídolos dele, com os caras que fazem imagens espectaculares e dramáticas.

Quando ele se candidatou a esta vaga, ele não mediu muito bem o que ia acontecer se ele passasse nos testes. Honestamente, acho que nenhum de nós dois pensamos direito sobre as consequências de perseguir o sonho dele.

A questão é que depois de um teste prático, duas entrevistas e alguns trabalhos freelances (isso tudo em vinte dias), ele foi chamado para trabalhar na empresa. Mano, que felicidade, finalmente ele ia conseguir trabalhar junto a gente fodona do mercado de 3D. Nós comemoramos muito, faz anos que ele sonha com trabalhar numa empresa especializada de 3D.

Depois das comemorações e a felicidade toda, passamos a pensar na logística de mudarmos para POA. Pensamos, analisamos, calculamos e decidimos que a melhor jogada era ele vir para Porto Alegre, ficar três meses até o contrato de experiência acabar e quando ele fosse efetivado então eu começaria a procurar trabalho para vir para o sul também e dai começaria a embalar a casa pra trazer, junto com nossos seis bichos de estimação.

Ele iria começar a trabalhar dia 15 de fevereiro, na segunda depois do carnaval, e nós estávamos na quarta feira antes do carnaval quando tudo foi desenrolado. Então decidimos que aproveitaríamos o feriado do carnaval e viajaríamos juntos de moto até Porto Aletre, trazendo as coisas necessárias pra ele viver três meses e a moto pra ele se locomover nesse tempo. Na terça feira de carnaval, eu voltaria de avião para São Paulo e daríamos início a este sonho.

Outro motivo pelo qual decidimos vir até POA juntos na moto, foi para poder nos despedir aos poucos. Em quase 17 anos de casamento, esta seria a primeira vez em que nós estaríamos separados por um período superior a três dias e isso nos causava um pouco de tristeza pois nós somos bem grudes (eu sei, parece coisa de adolescente, e nós tamos veios bagarai, mas quem nos conhece sabe que é a mais pura verdade).

No sábado, 6 de fevereiro, as 05:00 da manhã partimos de São Bernardo rumo a Porto Alegre, seriam aproximadamente 1300km de viagem, percorridos em dois dias para não ser tão cansativo. Nós estamos acostumados a viajar de moto, já estamos encardidos, então não seria grande coisa.

Viemos a viagem toda com tranquilidade, desfrutando do role, comendo, comemorando, conversando sobre como seria esta nova experiência, discutindo como seria a logística de eu vir visitar ele uma vez por mês e as possibilidades no novo trabalho dele.

Chegamos como planejado no domingo fim do dia, cansados, empoeirados, mas felizes por termos passeado de moto. Na segunda feira, viemos para a república onde ele ficaria e instalamos tudo. Fizemos compras, passeamos um pouco, tentamos ir no cinema (não deu certo kkk), coisas que sempre fazemos juntos. Eu ia embora na terça de manhã então aproveitamos todo o tempo possível que passamos juntos.

Na manhã de terça eu fui embora pra casa e demos início realmente à nova jornada, sem grandes despedidas, lágrimas, tristezas, etc., simplesmente falamos tchau e nos demos um beijo (se eu ficasse mais cinco minutos me despedindo, não iria embora).

A experiência de viver com alguém ao seu lado é algo maravilhoso (apesar dos problemas, brigas, conflitos, etc., que tem num casamento), é algo muito top. Eu gosto muito de compartilhar minha vida com meu marido, mesmo que pareça algo bobo, é a verdade. Acredito que do lado dele também seja verdade, pois nós sempre fizemos, e fazemos, tudo juntos. Somos brothers pra qualquer treta.

A questão é que além do amor, companheirismo e amizade, também existe o costume. Você se acostuma a chegar em casa e bater um papo, assistir um filme, pedir uma pizza, discutir quem vai abrir o portão para o cachorro. Chegar em casa, sozinha foi algo diferente, poderia até dizer que foi interessante (nos primeiros trinta minutos, óbvio). Eu tinha me comprometido com ele, então segui o rolê.

E assim, nós dois, temos seguido o rolê pelos últimos dois meses. Não está sendo fácil, nem um pouco. Nos primeiros dias eu senti o mesmo que as pessoas sentem quando seu parceiro falece (não é drama não, é serio :[). Eu entrava em casa esperando ver ele na mesa do escritório jogando LoL com meu irmão ou fazendo alguma escultura, ou senão, me pegava olhando pro lado dele do sofá esperando que ele chegasse do trabalho. Mano, vou dizer pra vocês, o bagulho é foda. Tenho a sorte de ter experimentado tudo isso e ainda ter a possibilidade de ligar pra ele e ver como está na hora que a saudade bate forte (e ela bate que nem Mike Tyson).

O pior desta experiência são os finais de semana. A gente já teve momentos de conversar e decidir que ele voltaria pra casa amanhã ou que eu largaria meu trabalho em São Paulo para vir pra cá. Se não fosse o custo dessa mudança toda já teríamos desistido faz tempo.

A questão é que nós desta vez estamos pensando não só com o coração, mas também com a cabeça (nada mal depois de 17 anos ouvindo nosso coração só =P). Temos debatido muito sobre o que fazer, temos analisado todos os ângulos, todos os prós e contras de cada cidade e de cada uma das nossas carreiras, o que uma mudança dessas significaria pra cada um de nós dois juntos e separadamente.

A verdade é que temos apenas três opções:

  1. Ele volta pra São Paulo (e fica desempregado)
  2. Eu vou para Porto Alegre (e ganho menos)
  3. Nos divorciamos e cada um segue seu rumo e sua carreira (esta opção foi a primeira a ser retirada =])

Quando sonhamos com uma carreira, com nosso sucesso profissional, com nossas metas e objetivos pessoais, honestamente não fazemos a análise correta do custo destas coisas. Sonhamos porque sonhar é barato, não custa nada e nos mantém ativos, funcionais, felizes. Mas verdade seja dita, dificilmente esperamos que esses sonhos se tornem realidade. Sempre achamos que essas oportunidades são só para os fodões, para as pessoas que admiramos, não para nós míseros mortais.

Quando o sonho bate na porta e diz: “e ae! bora?”, você percebe quão despreparado você está e começa a ter dúvidas. Dúvidas sobre você conseguir seguir o sonho, dúvidas sobre como a sua família vai lidar com isso, dúvidas sobre se você tem a capacidade para fazer aquilo ou se vão descobrir que você é um fraude, dúvidas, dúvidas e mais dúvidas.

Se você não tiver o apoio daqueles a quem você ama e que te amam, você pode acabar desistindo do sonho e ficar pensando se teria conseguido. Quando o sonho bate na porta você deve seguir ele, disso não há dúvidas, a questão toda é “qual é o custo desse sonho?“. (e não estou falando de dinheiro)

Você precisa se perguntar, até onde vai seguir o sonho e quais custos estará disposto a pagar.

Nós, meu marido e eu, descobrimos que a mudança para POA não vale a pena financeiramente. O custo de vida em Porto Alegre é um pouco mais baixo que em São Paulo, mas os salários são muito mais baixos. Simplesmente não vale a pena (claro, a menos que eu consiga um trabalho 100% remoto, se precisar de uma frontender me avisa =P). Então decidimos que ele vai voltar para São Paulo assim que o contrato de experiência terminar. Porque? N motivos que não vem ao caso e os que expliquei aqui.

No entanto, faz quinze dias atrás, meu marido, em um dos inúmeros debates sobre qual será nosso próximo passo, me disse que ele quer ficar por pelo menos seis meses nessa empresa (tal vez um ano), pra vale a pena tudo isto, além de que é o trampo dos sonhos e ele está aprendendo muita coisa foda, cada dia ele fica melhor (e ele já era muito bom =]).

Eu devo admitir que não fiquei muito feliz com isso, no entanto, não posso fazer birra e drama pois seria egoísmo da minha parte e este não é momento para ser egoísta, este é o momento para ser o suporte dele, é o momento de irmos atrás do sonho dele, então eu engoli o choro (mentira, chorei bagarai) e concordei.

Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa muito boa e ter um gestor brilhante e compreensivo.

Na minha equipe, todas as pessoas podem fazer dois dias de home office por semana, eu estou sendo testada fazendo três dias por semana. Meu gestor me permitiu pegar seguidos os três dias de uma semana e os três da próxima, desta forma eu pude vir visitar o amor da minha vida. Uma semana não parece muita coisa, mas eu garanto para vocês que uma semana é melhor do que nada. =P

Então, cá estou eu, no fim da minha visita, a poucas horas de partir de novo para São Paulo, analisando com meus botões (e com vocês) qual é o custo disto tudo, quais sacrifícios estamos dispostos a fazer para seguir nossos sonhos e até onde vale a pena.

Fica a dica da titia: Quando você fizer essa análise, pois ela é necessária, não veja somente o seu lado, mesmo que você não esteja preso casado (to brincando :P) a ninguém, ainda tem sua família (pai, mãe, irmãos e filhos). Coloque tudo na balança e veja até quanto você quer investir, depois disso siga seu sonho e continue sonhando, mas esteja sempre pronto para fazer os sacrifícios necessários, pois como nós estamos aprendendo, tudo tem um custo e as vezes pode pode não querer pagar.

Bjs!

[Várias correções ortográficas, vlw Paula Ruim =P]

  • hedianni

    É isso aí, Andreita!!! “Cuidado com o que você pede…pois você pode conseguir!” O custo dos nossos sonhos nos revelam o que de valor temos em nossas vidas.

    • Andréa Zambrana

      Exatamente Hedi 😛

  • Gostei do texto… e meu, parabéns pela força e coragem!
    Eu sou casado a bastante tempo (10 anos, mas 18 no total) e tenho filhos… estou “partindo” para algo bem parecido agora… a troca de PAÍS será inevitável daqui um tempo, mas já fui informado que ficarei algumas semanas “fora”. Vai ser foda, tanto de experiencia, como de ter que largar filhos e esposa… mas como vc tb disse no texto. Estamos juntos a bastante tempo e o que minha esposa TOPA o que for melhor pra nossa familia!
    Valeu por compartilhar sua experiência.

    • Andréa Zambrana

      Mais um pra lista dos que vão embora no nosso mercado 😛
      é, no seu caso é mais complexo pois tem as crianças. Honestamente, se nós estivéssemos saindo do Brasil, a treta seria menor pois nós dois estamos doidos atrás de uma oportunidade para viajar pra fora, so não queremos ir como “ilegais” =P

  • Flu

    Como faço parte dessa experiência como irmã, mãe, madrinha, amiga e totalmente e absolutamente família, sei o qto dói e corrói uma escolha pois a cada escolha q vc faz existe uma outra q vc é obrigado a deixar mesmo q seja por um tempo o qual vc nunca sabe se é longo. Qualquer pessoa q conhece vcs (par de dois) kkkkk sabe q o q vcs tem é único, e sobre o luto q vcs sentiram dêm graças a Deus por se terem, dentro de vcs existe o amor infinito, q Deus abençoe e nunca mude isso independente do lugar físico q cada um se encontre. Sobre tentarem essa nova idéia, sejam construtivos, evoluam, aprendam mais inclusive a ficar separados e se amando igual. Amo vcs dois DEMAIS <3

    • Andréa Zambrana

      vlw maninha, tb te amo s2

  • Ícaro Heimig

    Bom, em primeiro lugar meus parabéns ao teu marido! Em segundo, meus parabéns pra ti por estar lidando – aparentemente – muito bem com isso.

    Sejam bem vindos a Poa, se precisarem de algo nessa estadia é só dar um grito!

    Fiquei bem triste em saber que “O custo de vida em Porto Alegre é um pouco mais baixo que em São Paulo, mas os salários são muito mais baixos.” pelo fato de morar aqui :p mas fico muito feliz pra abrir os olhos e olhar com mais clareza outras oportunidades 😉

    Obrigado por compartilhar essa experiência, normalmente quando lemos algo sobre ir em busca dos sonhos as pessoas esquecem de mostrar(ou não tem) a parte do parceiro e ler o teu relato me deixou bem mais tranquilo, tanto para tentar buscar os sonhos, mas também por saber que tenho ao meu lado uma pessoa tão especial quanto tu tá sendo ao teu marido(e vice-versa).

    Mais uma vez, obrigado 😀

  • Andrea, parabéns pelo texto.

    É uma situação muito complicada, mas que se os dois estão juntos nessa, conseguirão dar um jeito. Como vc tem apoiado ele agora, ele te apoiará quando for a sua vez de correr atrás do seu sonho.

    Acho que se o casal tem amor e confiança o resto se ajeita.

    A saudade bate forte, mas ajuda a aproveitar melhor os momentos juntos.

    Toda a sorte do mundo para vcs!

  • Excelente texto, obrigado por compartilhar a experiência.

    Parabéns pela atitude, no final tenho certeza que os dois serão recompensados.

  • Investe na opção remota, que é sucesso. Coloca seu LinkedIn em inglês e dá uma conectada em podcasts sobre trabalhar no exterior pq você já está com a faca e o css na mão. 😉 Ah, e fique fera em JS e React. O que não falta é empresa gringa precisando disso. Vale a pena viciar em sites tb como Toptal, Upwork e as próprias vagas do LinkedIn. Com portfólio pronto em mais tempo, menos tempo você consegue trabalhar só de casa e receber bem. Eu estou há quase uma década nessa, em Aracaju (POA paga pouco? haha Imagina no nordeste). Boa sorte!

    • Andréa Zambrana

      Já estou nessa trilha Davi 😛
      vlw pelas dicas!